• Significado de “céu” no Novo Testamento

    O Novo Testamento emprega muitas vezes o vocábulo “céu” em muitos contextos. Nesse estudo, traduzimos o comentário de uma das obras de teologia do NT mais renomadas atualmente, The Dictionary of Jesus and the Gospels [O Dicionário de Jesus e os Evangelhos], para falar sobre o assunto [...]

  • Antropologia do Novo Testamento

    O lugar das pessoas na atividade de criação de Deus é comparado a seu lugar na Sua atividade de redenção. O Novo Testamento insiste em que as pessoas não tinham aceitado a responsabilidade dada em Gênesis 1:29-30. É igualmente insistente que a alta estima de Deus para com o homem não diminuiu [...]

  • Significado de GEENA na Bíblia

    GEENA. A forma Gr. do Heb. gē–hinnom, “”vale de Hinom” (Jos. 15:8; 18:16); também chamado Topheth (II Rs 23:10). A forma Gaienna ocorre na LXX em Jos. 18:16b. A palavra é usada como nome metafórico do lugar de tormento dos ímpios, após o julgamento final [...]

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Comentário de Gálatas 3:1




Observações preliminares
Comentário de Gálatas 3:1
1. O próprio corpo de jurados como testemunhas. No versículo anterior (Gl 2.21) Paulo aguçara tudo para uma alternativa radical: Ou a lei ainda vale, então o evangelho fica sem valor; ou Cristo vale, e então a lei acabou. Os judaístas defendiam apaixonadamente uma síntese, mas Paulo envereda pelo caminho da comprovação exegética. H. D. Betz, pág 79 e 238-239, comparou essa disputa com uma sessão no tribunal. Os judaístas são os acusadores, Paulo é o acusado, os gálatas são o corpo de jurados. No início, porém, acontece algo extraordinário. Paulo pressiona os jurados para o banco de testemunhas, sim, ele praticamente os arrasta para dentro, o que se expressa em cinco perguntas consecutivas. Os próprios juízes são, na questão em processo, testemunhas de peso e devem dar sua declaração.
2. Quanto à pneumatologia da carta aos Gálatas. Ao que parece, sem introdução e sem considerar necessária uma explicação, Paulo fala, ao contrário do que se espera, não de que os gálatas se tornaram crentes, mas de que eles receberem o Espírito. Logo três vezes aparece o termo pneuma/Espírito (v. 2,3,5) e no restante da carta outras quinze vezes, além de mais uma vez o advérbio “espiritualmente”. A função do termo e de seu conteúdo é tamanha na carta que ela dificilmente é compreendida sem a sua pneumatologia. A posição-chave desse tema para Paulo e seu conseqüente enfoque a partir desse ponto resulta do seguinte: os judaístas insistiam que cada pessoa que quisesse pertencer verdadeiramente ao povo de Deus tinha de cumprir a exigência da circuncisão. Em contraposição, porém, o povo de Deus é para Paulo uma grandeza espiritual. Ele o é desde Abraão (cf. abaixo, o exposto sobre Gl 4.23) e de maneira impactante na renovação messiânica, o que também confere com a profecia do fim dos tempos no at. Nesse caso, porém, a dádiva do Espírito tinha de tornar-se o argumento principal para a liberdade diante da circuncisão e da lei propriamente dita. Já no at a dádiva escatológica do Espírito e a liberdade aparecem juntas (Is 61.1,2; cf. Lc 4.18). “Onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Co 3.17).
Era apenas aparente que Paulo conseguiria articular-se nos dois primeiros capítulos, e sobretudo no versículo temático de Gl 2.16, sobre a justificação pela fé, sem a pneumatologia. Agora se evidencia que por momento algum ele compreendeu esse tema sem o Espírito, mas que para ele a fé e o Espírito se encontram num relacionamento muito íntimo. Com um deles na prática já se afirma também o outro. Quem está na fé em Cristo, vive no Espírito. Quem vive no Espírito, está abraçado em Jesus. Fé e Espírito juntos, estreitamente entrelaçados, constituem uma grande bênção (cf. Gl 3.14!). Ela é fruto de uma pregação do Crucificado realizada com autoridade. Quanto aos diversos aspectos da pneumatologia na carta aos Gálatas, veja os comentários sobre:

•     Gl 3.2,14; 4.6,29: Espírito e tornar-se cristão
•     Gl 3.3; 5.25: Espírito e permanecer cristão
•     Gl 3.4: Espírito e carismas
•     Gl 5.16—6.10: Espírito e ética

Incisivamente Paulo dá vazão à sua decepção: Ó gálatas insensatos! A interpelação é envolvida pelas nove vezes em que Paulo os chama de irmãos na presente carta (cf. o exposto sobre Gl 6.18), motivo pelo qual não constitui insulto. Ela tem a ver com o conteúdo da questão e exerce uma função. Nesses irmãos Paulo sente falta do uso da sua capacidade racional. Para quem Cristo foi anunciado de forma tão poderosa e libertadora (cf. a segunda metade do versículo!), esse por certo deveria destacar-se por um senso totalmente novo para a realidade. Entre concidadãos não iluminados ele teria de se mover como um sóbrio entre ébrios. Porém, era um enigma por que esse realismo não funcionava entre os gálatas.
A mesma acusação também atingiu repetidas vezes os discípulos do Jesus terreno: “Será que vocês também não conseguem entender” (nvi); “Os filhos do mundo são mais hábeis… do que os filhos da luz” (Mc 7.18; Lc 16.8). Da mesma maneira fala também o Ressuscitado: “Como vocês custam a entender e como demoram a crer em tudo” (Lc 24.25 [nvi]). Essa queixa se alonga depois nas cartas apostólicas: “Falo (espero!) como a criteriosos”, “Não sejais meninos no juízo”; “Não vos torneis insensatos” a. Insensatez no povo de Deus constitui uma tragédia dupla (cf. o exposto sobre Gl 1.6).
Quem vos fascinou…? O fato de Paulo não estar citando nomes não tem de significar que ele não conheça nenhum. Pelo contrário, dessa maneira ele declara seu antagonista como um ninguém, como um Nulo de Tal (cf. o exposto sobre Gl 1.7), assim como ele também desqualifica a pregação dele como sendo engambelação. Tanto pior para os gálatas. Essa conversa fiada foi capaz de desqualificar entre eles a mensagem da cruz. Deixaram-se impressionar por ela, praticamente hipnotizar, em vez de oferecer resistência, como, p. ex., Paulo fez de acordo com Gl 2.5,14. Tudo isso naturalmente está sendo dito de maneira muito provocadora. Tem o objetivo de sacudir e alarmar os gálatas. Em tom análogo Paulo fala aos coríntios (2Co 11.19,20): “Vocês são tão sábios e suportam de boa vontade os loucos. Toleram os que mandam em vocês e exploram vocês; toleram os que os enganam, os que os tratam com desprezo e os que lhes dão bofetadas” (blh).
Ante cujos olhos foi Jesus Cristo exposto (publicamente). Como explicamos na nota sobre a tradução, Paulo não chama atenção para a sua capacidade de pregar de forma arrebatadora. Antes está preocupado com o ponto de vista jurídico, i. é, com a vigência divina de sua pregação pioneira na Galácia. Quando na Antigüidade se desenrolava na praça comercial diante da multidão estupefata um cartaz com um edito imperial, esse ato inaugurava uma nova situação legal. Desse momento em diante esse decreto estava em vigor. Transgredi-lo trazia conseqüências. Sua publicação era um acontecimento que interferia de maneira transformadora na vida. Desse modo, cerca de cinco anos antes, a pregação de Paulo ocupou irresistivelmente o espaço de vida dos leitores da carta, confirmada por manifestações espirituais e frutos (v. 4,5). O evangelho evidenciou-se como poder e criou, do nada, nova existência, a saber, uma igreja de fé e júbilo (Gl 4.15). Um fato desses, afinal, não se esquece! De maneira similar Paulo escreveu sobre a hora do nascimento da igreja em Corinto: “o testemunho de Cristo tem sido confirmado (legalmente) em vós” (1Co 1.6)b. Disso não se tinha nada que tirar, a não ser que alguém não estivesse no domínio de suas faculdades mentais. Contudo, evidentemente era essa a situação dos gálatas. Nesse contexto Paulo oferece uma caracterização abreviada de sua pregação missionária: Jesus Cristo… como crucificado. Não foram palestras bíblicas gerais sobre isso e aquilo, e sim uma comunicação pública consciente do tema. Deparamo-nos, um pouco chocados, com uma concreticidade tão certeira. Em 1Co 2.2 Paulo até afirma mais incisivamente: “Pois decidi nada saber entre vocês, a não ser Jesus Cristo, e este crucificado” (nvi).
Entretanto cabe afastar o equívoco de que Paulo não sabia nada sobre a ressurreição: Nenhum isolamento da cruz tem relação com sua história posterior! Paulo jamais proclamou Jesus como um homem morto, i. é, jamais parou a história no momento da cruz, excluindo mentalmente a ressurreição. Sem a ressurreição sequer existiria para ele uma “palavra da cruz”, uma nota de falecimento, e a fé cristã seria sem fundamento (1Co 15.17). Passemos, porém, ao decisivo: A Páscoa não anulou para ele a cruz, não fez esquecê-la, mas, pelo contrário, tornou-a inesquecível. A Páscoa eternizou a cruz, atualizou-a como realidade constante. O Cristo vivo governa o mundo praticamente do alto da cruz. As cicatrizes em suas mãos traspassadas são suas insígnias reais. Deixando de lado a ilustração: O amor crucificado é agora a instância máxima, determinando os parâmetros.
De onde vem, no entanto, o desequilíbrio numérico entre os textos sobre a cruz e a ressurreição justamente em Gl? Da cruz ou do morrer de Jesus falam quase dez passagensc, e do Ressuscitado, somente Gl 1.1. A resposta deve residir no fato de que é precisamente a cruz que possui em si poder de crítica à lei (cf. o exposto sobre Gl 1.16).
Além do mais Paulo também estava interessado no modo singular da morte do Senhor, de que morreu justamente na cruz (em vez de, p. ex., por apedrejamento). É significativo um acréscimo em Fp 2.8, que ele insere, ao que parece, em alta voz: “obediente até à morte e morte de cruz”. Sempre de novo esse apóstolo refletiu teologicamente sobre esse instrumento de execução, tendo por isso sintetizado também todo o testemunho de Cristo como “palavra da cruz” d. O peculiar numa execução dessas era seu grau máximo de vergonha e desprezo. “Maldito (por Deus) todo aquele que for pendurado em madeiro” (Gl 3.13, referindo Dt 21.23). A cruz tira a credibilidade. Por isso os transeuntes, conforme Mt 27.39-43, apenas podiam menear a cabeça: “Ele é o Rei de Israel, não é? Se descer agora mesmo da cruz, nós creremos nele!” (blh). Como, apesar disso, “cruz” pode ser uma palavra de salvação, tornar-se parte inerente de uma mensagem de fé para o mundo? Nada em nós seres humanos está predisposto para essa mensagem, em termos intramundanos ela não pode ser tornada plausível (quanto ao “escândalo da cruz”, cf. o exposto sobre Gl 5.11). Somente por meio de uma experiência pneumática Jesus se torna nosso Senhor. É para isso que Paulo convoca os gálatas como testemunhas.




a1Co 10.15; 14.20; Ef 5.17
bMc 16.20; 1Co 2.4,5; 1Ts 1.5; Hb 2.2-4
cGl 1.4; 2.19,20; 3.1,13; 4.5; 6.12,14
d1Co 1.18; 1.17,23; 2.2,8; 2Co 13.4; Gl 3.1,13,14; 5.11,24; 6.12,14; Ef 2.16; Fp 3.18; Cl 1.20; 2.14
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Explicação de Jeremias 15



Jeremias 15
A determinação divina de não abrandar-se. 15:1-9.
1. Moisés e Samuel. Dois grandes intercessores. Para Moisés, cons. Êx. 32:11-14; Nm. 14:13-19. Em relação a Samuel, veja I Sm. 7:5-11; 12:19; Sl. 99:6. Contudo nem eles teriam sucesso agora.
3. Quatro sortes de castigos, para que sejam um espetáculo horrendo (v. 4), isto é, objeto de terror. Manassés introduziu grande idolatria em Judá (II Reis 23:26; 24:3). Mas Jeremias insiste diversas vezes em que o povo mesmo era responsável pelos seus pecados e castigo (por exemplo, 31:29, 30).
6. Voltaste para trás. Compare com observações sobre 18:8.
7. Cirandei-os com a pá. Então eu os joeirarei com um forcado (cons. Mt. 3:12).

b) A Renovação do Chamado de Jeremias e o Seu Preço. 15:10 - 16:9. Uma confissão profundamente reveladora, exibindo a amargura da alma do profeta. A resposta divina indica que Jeremias precisava tomar cuidado com o seu estado de espírito e não falar nada além da verdade. Então ele é encorajado e recomissionado.

A lamentação do profeta e o seu recomissionamento. 15:10-21.
11. Este versículo é de difícil interpretação. O significado parece ser que nem protegerá o profeta quando ocorrer a catástrofe.
13, 14. Esses versículos aparecem novamente, com variações, em 17:3b,4. São dirigidos ao povo de Judá e predizem o exílio.
16. A suficiência da Palavra de Deus está declarada de maneira pitoresca. Cons. Js. 1:8; Ez. 3:1-3; Ap. 10:8-11, onde a experiência de João é muito parecida com a de Jeremias. Pelo teu nome sou chamado. Literalmente, o teu nome me foi imposto. Uma referência à chamada divina do profeta que era especial. A lembrança desta chamada fortalecia Jeremias a prosseguir.
17. Tua mão. A mão de Deus estava sobre Jeremias – uma expressão que revela a inspiração divina, que era a razão da perseguição feita a Jeremias (cons. Ez. 1:3, e frequentemente em Ezequiel; I Reis 18:46 ; Is. 8:11). 1
8. Ilusório ribeiro, e não, mentiroso. Jeremias reprova Deus por ter-lhe falado, como quando um viajante. na estação da seca descobre que o ribeiro do qual esperava beber secou-se (cons. Jó 6:15-20).
19. Se tu te arrependeres, eu te farei voltar. A ideia é: Se você se arrepender (de sua auto-piedade), eu o restaurarei. Se apartares o precioso do vil. O profeta devia disciplinar seu pensamento e palavras. Então ele poderia ser o porta-voz (a minha boca) de Deus. O final do versículo é uma ordem ao profeta a que não se rebaixe ao nível daqueles aos quais ele prega.

20, 21. Estes versículos repetem a substância de 1:18, 19.
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Explicação de Daniel 5




Daniel 5
D. A Festa de Belsazar: Uma Lição sobre o Pecado e o Seu Castigo. 5:1-31.
Explicação de Daniel 5
O propósito deste capítulo é dar instrução moral mais que informação histórica. Os versículos 1, 30, 31 fornecem os únicos dados históricos significativos. O resto é uma lição sobre o pecado e o seu castigo.
Gobryas (babl. Gubaru), general de Ciro, está junto ao portão da Babilônia no exato momento em que o rei dava início a sua festa. Ele tinha desviado as águas do Eufrates e marchava com seus homens subindo o leito do rio a caminho da cidade que ficava em suas duas margens. Os portões do rio tinham ficado sem guardas. A Babilônia, com mantimentos estocados para vinte anos, supunha-se segura por trás dos muros maciços. Nabonidus (bab. Nabunaid), o pai de Belsazar, fora derrotado na batalha pelos exércitos de Ciro, e agora estava cercado em Borsipa, não muito longe. Não havia lugar para loucas bebedices!

1) Prazer, o Motivo da Festa. 5:1-4.
1. Belsazar. Desconhecido a não ser através deste capítulo, o rei atualmente está bem autenticado através de documentos antigos (RP. Dougherty, Nabonidus and Belshazzar). Um grande banquete. Uma festa sensual, indicada pela presença de mulheres entre os homens, coisa fora do comum no Oriente, (com. Ester 1:9). Bebeu vinho na presença dos mil. Mesmo nas festas públicas os reis orientais (pelo menos no período persa) ficavam ocultos da vista pública. Era uma liberdade não contida pelas convenções.
2. Mandou trazer os utensílios. Para Nabucodonosor tirar esses vasos do templo de Jerusalém (1:1-3) estava de acordo com os costumes de guerra. Mas retirá-los do depósito nacional para uma orgia era sacrilégio. Nabucodonosor, o grande rei, tinha verdadeiras façanhas a seu crédito, e num certo grau, Nabonidus, o pai do rei, realizara façanhas pacíficas para crédito seu. Mas o príncipe covarde só sabia realizar tolos atos de sacrilégio para ganhar fama.
4. O comportamento de Belsazar era sensual, incontrolado, selvagem e sacrílego. Também era estúpido. Os exércitos de Gobryas já se encontravam dentro da cidade.

2) Uma Contribuição Pressaga de Deus para a Festa. 5:5, 6.
5. No mesmo instante. Deus falou de repente. O tempo se esgotara. Uns dedos de mão de homem. O presságio era misterioso. O sobrenatural se apresentava. Na caiadura. Sobre a mesma parede onde deviam estar registrados os grandes acontecimentos nacionais. Ação impiedosa! Deus não se preocupa com vanglórias patrióticas. E o rei via. Era extraordinário.

3) Perplexidade, o Efeito da Visitação Divina. 5:7, 8.
7. Encantadores... caldeus.., feiticeiros. Uma vez mais (cons. 2:2-14; 3:8; 4:6, 7) esses monumentais charlatães apareceram. Além deles “não conhecerem a Deus” (I Co. 1:21) em sua “sabedoria”, pouco sabiam sobre qualquer outra coisa mais (cons. Dn. 5:8). Púrpura, a cor da realeza entre diversos povos antigos e provavelmente também os babilônios. Cadeia de ouro. Cons. Gn. 41:42. O terceiro no meu reino.
De significado incerto. Algumas autoridades identificam a palavra como significando “ajudante” ou “oficial”. A palavra talti é, com toda certeza, derivada do aramaico telat (cons. BDB) e provavelmente significa terceiro (governante ou parte). Comumente só o pai de Belsazar, o cercado Nabonidus, teria autoridade para nomear um terceiro. Mas por uma ou duas horas Belsazar foi de fato, se não de jure, o supremo monarca, e achou que podia conferir esta honra. Nenhum judeu na Palestina, durante o período dos Macabeus (século segundo A.C.), poderia ter reconstruído tão corretamente a situação histórica, contrariando certos críticos que assim pensam.

4) Declaração de Desgraça, a Parte de Daniel na Festa. 5:10-28.
10. A rainha-mãe. Não a esposa do rei, mas sua mãe. Nas famílias polígamas, a rainha é a mãe do rei (cons, narrativas sobre mães de reis judeus no V.T.). Esta rainha era presumivelmente uma esposa de Nabonidus. Talvez também fosse uma jovem esposa do notável Nabucodonosor (cons. Boutflower, in loco).
11. Nabucodonosor... teu pai. Nabucodonosor era, naturalmente, não o parente masculino imediato do rei. É pouco provável também que Nabucodonosor tenha sido seu avô. Provavelmente pai apenas num sentido legal, uma vez que Nabonidus teria se aparentado com a família do grande Nabucodonosor através do casamento (Boutflower, in loco). A repetida afirmação da rainha sobre o relacionamento com o “pai” sugere que era uma questão de etiqueta na corte, não um fato real. Esse tipo de etiqueta não é desconhecida em outras partes da Bíblia (por exemplo, I Cr. 3:17, onde Salatiel, o filho de Neri que descendia de Davi através de Natã, II Cr. 3:27, 31), é chamado de “filho” de Jeconias).
17. Os presentes materiais de um rei cujo tempo de vida estava contado, pouco significavam para um santo profeta avançado em anos.
25. MENE, MENE, TEQUEL e PARSIM. Evidência textual, como também os versículos seguintes, indicam que aqui provavelmente há uma combinação de má interpretação e corrupção do texto. O versículo seria possivelmente assim, com aspas: “Estas são as palavras escritas: ‘Mene Mene, Tequel’ e ‘Parsim’.” O U de UPARSIM é a forma aramaica de “e”. O PH é um som aspirado de P para acomodar o som da vogal anterior. O IN é a forma do plural, provavelmente introduzido mais tarde por algum escriba que ligou a palavra aos persas, pois a terminação só pluraliza a palavra. Mene foi repetido para dar ênfase. As três palavras Mene, Tequel e Peres, conforme se apresentam, são particípios passivos, exatamente traduzidos para contado, pesado e dividido. São também, quando sem as vogais, a saber, MN, TKL, PRS, os nomes de três pesas antigos que poderiam ser paralelos dos nossos termos, uma libra, uma onça, meia onça, Além disso, é possível que a inscrição sobre a parede fosse cuneiforme silábica ou em ideogramas. Nenhum desses modos de escrever seria inteligível sem um contexto. Na realidade, à parte da interpretação, seu único valor foi o de captar a atenção do rei para que Daniel pudesse lhe falar.
26, 28. (Boutflower, Montgomery e Young ajudam muito aqui.) É possível que as palavras interpretadas sejam nomes de pesas ou moedas conforme indicado acima. Nesse caso, fazem um jogo de palavras. Mane (aram.), um peso de cinquenta siclos, equivalente a cerca de duas libras (veja Ez. 45 : 12), faz paralelo a mene, que significa contado. Tequel, uma moeda ou peso, equivalente ao siclo hebreu, sugere tequel no sentido de pesado. Peres (meio mane) sugere peres, dividido. Também sugere agourentamente a Pérsia, que aparece no versículo 28. Aos medos e aos persas. Este versículo prova conclusivamente que o autor deste livro cria que o sucessor do reino babilônico seria um reino dual, incluindo dois elementos nacionais. Ele não imaginava o segundo e o terceiro estágio do império (caps. 2; 7) como respectivamente dos medos e persas, mas reconhecia-os como medo-persa e grego respectivamente. A crítica incrédula está “enroscada” neste versículo como se o autor estivesse supondo uma sucessão da Babilônia, Média, Pérsia e Grécia, e não a verdadeira sucessão da Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma.

5) O Castigo, o Final da Festa. 5:29-31.
30. O sacrilégio de Belsazar, como o de outros (II Sm. 6:6, 7; Lv. 10:1, 2; I Co. 3:17), exigia castigo imediato naquela mesma noite. Detalhes do cerco e queda de Babilônia já foram há muito profetizados por Jeremias (caps. 50 e 51). Assim Deus cumpria a profecia de Isaías referente a Ciro (Is. 44:24, 28; 45).


segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Estudo de Gênesis 6





6:1—8:22 O diluvio
6:1-7,11-13 A causa do diluvio
Estudo de Gênesis 6
A genealogia do capitulo 5 deixa claro que, além dos descendentes de Adão e Eva citados por nome, cada um desses homens “teve filhos e filhas”. Caim também teve filhos e filhas que, por sua vez, tiveram suas próprias famílias. Assim, no tempo de Noé, a decima geração depois de Adão, a população havia crescido consideravelmente, como indica o inicio do capítulo 6: como se foram multiplicando os homens na terra (6:1).

O ideal de Deus para a família já havia sofrido dois golpes, pois o relacionamento entre marido e mulher não era mais inteiramente aberto, como se percebe na necessidade de esconderem um do outro algumas partes do corpo (3:7), nem monogamo (4:19). Aqui, essa relação sofreu um terceiro golpe que a distorceu ainda mais, pois os filhos de Deus se casaram com as filhas dos homens (6:2). Num casamento desse tipo, o marido e a mulher não estão mais vivendo no temor do Senhor. Entraram numa aliança entre a luz e as trevas, entre o sagrado e o profano (2Co 6:14). Deus havia advertido que a consequência do pecado era a morte (2:17) e, diante dessa perversidade crescente, ele determina que essa morte ocorrera ainda mais cedo, reduzindo o limite da vida humana a cento e vinte anos (6:3). No entanto, e possível que essa determinação tenha sido um ato de misericórdia, pois e difícil viver anos a fio sem a paz de Deus no coração.

Fica claro que esses casamentos mistos desagradaram ao Senhor. No entanto, não há um consenso entre os estudiosos quanto a identidade das partes envolvidas. Alguns argumentam que os “filhos de Deus” eram anjos caídos, possivelmente os mesmos que, segundo Judas, “abandonaram o seu próprio domicilio”, ou seja, seu estado (Jd 6). Nesse caso, as mulheres foram consideradas tão perversas que se dispõem a casar com qualquer um, ate mesmo com um anjo caído. Os anjos tomaram para si [...] as que mais lhe agradaram. Aqueles que defendem esse ponto de vista argumentam que os gigantes (cf. Nm 13:33) de 6:4 nasceram dessas uniões mistas. No entanto, a linguagem usada não parece exigir essa interpretação, pois o texto parece dizer apenas que os gigantes existiam no tempo em que estavam ocorrendo essas uniões mistas. A referência a eles pode ser simplesmente uma indicação de que, além de abençoar a humanidade com uma vida longa e crescimento numérico, Deus também havia lhes concedido uma grande estatura.

Uma possibilidade mais provável e que o texto esteja se referindo a casamentos mistos entre homens da linhagem de Sete (chamados de “filhos de Deus” pelo fato de Sete, seu antepassado, ser temente a Deus) e mulheres da linhagem de Caim (chamadas de “filhas dos homens” pelo fato de Caim ter sido expulso da presença do Senhor e seguido sua própria vontade, como fizeram descendentes como Lameque). Nesse caso, a linhagem de Sete, que devia promover a vontade de Deus, havia perdido o foco a tal ponto que tudo o que importava era a beleza das mulheres da linhagem de Caim. Embora apresente algumas imperfeições, essa hipótese tem o mérito de enfatizar a diferença entre as linhagens de Caim e Sete: ao que parece, a tradição de Enos de invocar o nome do Senhor (4:26) começa a desaparecer. Deus se desagrada quando todos se tomam perversos e não e mais possível fazer distinção entre as pessoas com base em seus valores.

As palavras era continuamente mau todo o desígnio do seu coração (6:5) mostram os crescentes avanços do mal entre os seres humanos. O autor também diz que a humanidade estava corrompida e cheia de violência (6:11-12). Infelizmente, essas palavras se aplicam muito bem as nossas sociedades do século XXI. Assim, devemos atentar para a atitude do Senhor diante dessas condições: resolvi dar cabo de toda carne [...] eis que os farei perecer juntamente com a terra (6:13). Deus não fez isso com alegria ou ira insensível. Pelo contrário, este e um dos versículos mais comoventes das Escrituras, pois nos diz que Deus tomou essa atitude com tristeza: e isso lhe pesou no coração (6:6). Os filhos que causam esse tipo de dissabor ao pai são amaldiçoados, quer a maldição seja pronunciada, quer não. O Deus entristecido aborrece o mal e age de modo a tratar dele. E por isso que nos, africanos, não podemos considerar nossa situação levianamente.

Será que o coração de Deus está entristecido e pesado por causa de nossa corrupção e perversidade? Nesse caso, estamos sob a maldição do Deus que concede e sustenta a vida! Isso não significa que e impossível escapar dessa maldição. Deus e um Pai amoroso que deu seu Filho Jesus Cristo para nos resgatar (G1 3:13). No entanto, também e um Deus de justiça e retidão (Mq 6:8), e é nossa responsabilidade corrigir aquilo que está errado. Como qualquer outro lugar do mundo, na África não faltam erros aguardando correção.

O restante da criação não participou do pecado humano, mas, ainda assim, foi contaminado pelo contato com os seres humanos e destruído junto com eles (6:7). O pecado e como o fermento que permeia todo o pão. O homem que, em tempos idos, era a coroa da criação com sua beleza e vida em comunidade (1:31), arruinou tudo o que Deus havia criado. De acordo com o principio aplicado a esse caso, o comportamento do chefe da família afeta não apenas ele próprio, mas toda a sua casa. Vimos a aplicação desse principio em relação a pais e filhos (Caim e Lameque — 3:19-24), e vemos como continua valido tanto para chefes de estados e instituições como para a relação entre os seres humanos e a natureza.

6:8-10,14-18 Uma exceção
Apesar de o mundo ter se afundado em pecado, houve alguém que achou graça diante do Senhor (6:8). Esse individuo e descrito como um homem justo e integro entre os seus contemporâneos, um homem que andava com Deus (6:9). Muitos cristãos africanos se perguntam se é possível prosperar sendo honesto nos negócios, se podemos nadar contra a mare e, ainda assim, ser bem-sucedidos. Noé nos dá a resposta. Ele encontrou favor diante de Deus. O mesmo acontecera com qualquer um que glorificar a Deus em sua geração, por mais que o mal tenha se tomado parte de nossa sociedade.

Deus revelou seus planos a esse homem extraordinário (6:13) e lhe deu instruções especificas. A princípio, Noé recebeu uma ordem geral, Faze uma arca (6:14a), e só depois recebeu os detalhes sobre a construção (6:15-16). Noé precisava, primeiro, decidir obedecer a instrução geral de Deus; só então os detalhes seriam relevantes. Deus opera da mesma forma hoje ao nos dar a instrução geral “Crê no Senhor Jesus” (At 16:31; Jo 3:16,36), que deve ser obedecida antes de qualquer fato específico. E inútil discutir questões acadêmico-teológicas sobre Jesus antes de obedecer a instrução inicial de crer nele. De nada serve, no plano divino da redenção, o conhecimento de minúcias bíblicas ou teológicas sem disposição para a obediência.

A arca seria construída de tabuas de cipreste, teria compartimentos e seria revestida por dentro e por fora com betume para impermeabilização (6:146). Teria trezentos côvados (140 m) de comprimento, cinquenta côvados (23 m) de largura e trinta côvados (13,5 m) de altura (6:15). A arca teria uma porta na lateral e seria coberta, mas Noé deveria deixar uma abertura de um côvado de altura entre as paredes e a cobertura para permitir a circulação do ar (6:16). Por dentro, a embarcação teria três pavimentos. As instruções de Deus foram especificas porque só ele estava a par de detalhes como a intensidade e a duração do dilúvio, quem seriam os ocupantes da arca e assim por diante. E fato comprovado que uma arca com essas medidas poderia boiar.

Em 6:13, o Senhor revelou a Noé que destruiria toda a humanidade e em 6:17 explicou de que maneira isso ocorreria. Essa explicação deve ter ajudado Noé a entender por que era necessário construir a arca. A declaração do Senhor tudo o que ha na terra perecera deve ter sido profundamente perturbadora, mas, assim como Noé não a questionou, não nos cabe questiona-la. Como Criador, Deus tem o direito de destruir sua criação. No entanto, também há esperança, pois Deus prometeu a Noé: Contigo, porem, estabelecerei a minha aliança; entraras na arca, tu e teus filhos, e tua mulher, e as mulheres de teus filhos (6:18). Deus não se compraz na destruição injustificada.

Ele destruiu a terra porque ela não estava mais cumprindo o proposito para o qual ele a havia criado. O proposito da humanidade e da criação era declarar o “eterno poder [de Deus], como também a sua própria divindade” (Rm 1:20), e sua santidade (SI 19:1; 29:2; Is 43:7; 51:7). Quando os seres humanos frustram essa intenção em vez de promovê-la, o Criador — como os inventores de nosso tempo — tem todo o direito moral de começar da estaca zero. Aqueles que preservam a justiça de Deus, como fez Noé, encontram segurança. O Senhor firma uma aliança com aqueles que procedem desse modo, mas destrói o restante. Assim, ao pregarmos, jamais devemos enfatizar a graça de Deus a custa de sua justiça. E preciso manter o equilíbrio entre seu amor e sua santidade, pois ele preserva ambos.

Junto com Noé foram salvos sua esposa, os três filhos e respectivas esposas (6:18; 7:13). Podemos argumentar que eles foram salvos porque as bençãos de Noé se estenderam a toda a sua casa. Também e possível que o relacionamento de Noé com Deus tenha influenciado seus familiares a ponto de qualificar todos os membros de sua casa para entrar na arca. Considerando-se o contexto geral da passagem, a primeira explicação parece mais provável. Esse princípio de comunidade sem duvida e aplicado em situações semelhantes, como quando Ló recebeu a ordem de reunir seus familiares e sair de Sodoma (19:12). Mais uma vez, somos lembrados da importância do relacionamento entre o chefe da família e Deus, pois a conduta desse homem ou mulher pode resultar num transbordamento de bençãos ou
maldições para o restante da família.

6:197:5 O objetivo do diluvio
Apesar da destruição de tudo o que não estava na arca (7:21-23), o objetivo maior do dilúvio não era eliminar toda a vida, mas sim acabar com o baluarte do pecado. Pode-se dizer que o dilúvio não visava aniquilar a criação, mas preservá-la por intermédio de tudo o que Deus havia ordenado a Noé colocar na arca para permanecer seguro. A destruição de toda a criação teria representado um fracasso do Criador, mas o Senhor não falha em nenhum de seus propósitos.


Nem mesmo o pecado inicial de Adão e Eva frustrou seus planos, pois ele anunciou na mesma ocasião a vinda futura do Salvador que esmagaria o diabo e daria inicio a uma nova comunidade que celebraria a gloria de Deus (3:15). Assim, ao anunciar que destruiria “toda carne em que ha folego de vida” (6:17), Deus não estava fazendo uma declaração literal. Além de não destruir Noé e sua família, ele também poupou representantes de todas as espécies de animais para que a vida pudesse ter continuidade. Ele havia descansado da obra da criação (2:2), e nem mesmo a destruição do mundo o faria retoma-la. Assim, Deus instruiu Noé a colocar dentro da arca um macho e uma fêmea de cada espécie de ave e animal (6:19-20a), provendo com isso tanto o extermínio quanto a continuidade. Uma geração e eliminada, mas um remanescente sobrevive para iniciar uma nova geração.
Comentário de Apocalipse 12:1




Comentário de Apocalipse 12:1
Viu-se grande sinal no céu. Um sinal não é absolutamente o próprio objeto, mas sempre nada mais que uma indicação dele.528 Contudo, ao contrário de muitos sinais do Ap, esse é grande em importância e aparece no céu. No v. 3 ele será contraposto a um segundo grande sinal celeste, embora fundamentalmente diferente.
Dificilmente podemos nos esquivar do paralelo com os dois sinais em Is 7.11, embora os de lá tenham procedência oposta, a saber, das alturas e das profundezas. Resta, pois, apenas uma ligação solta e fortuita. Costuma-se mencionar também com freqüência os “sinais dos céus” de Jr 10.2, uma expressão que ali, porém, refere-se a corpos celestes. Em Lc 11.16 (e paralelos) os judeus demandam um “sinal do céu”. Entretanto, de acordo com o uso idiomático na época, “sinal” é uma palavra substituta para “ação miraculosa”, a qual deveria acontecer “do céu”, ou seja, por meio de Deus. No presente texto sinal tem o significado de “figura simbólica”. Também o “sinal do Filho do Homem”, de Mt 24.30, que ele próprio representa, não se enquadra tecnicamente no presente texto.
Portanto, João viu esse sinal no (“dentro do”) céu.529 Apesar disso, a mulher vista por ele nitidamente dá à luz sobre a terra, porque seu Filho é arrebatado ao céu. É ali que mais tarde o dragão lançado à terra a persegue e que ela é socorrida pela terra (v. 16), abrigada pelo deserto (v. 6). Para onde, então, João está olhando? Acaso eleva ou inclina o olhar? Primeiramente deve-se observar que João no presente capítulo, ainda que de resto declare a cada momento: “e eu vi”, procede de maneira reservada com a afirmação daquilo que vê. Nos v. 1,3 consta simplesmente: “viu-se um sinal”. A circunstância de que os dois sinais apareceram “dentro do céu” pode significar que ele vislumbra as grandezas simbolizadas não conforme seu aspecto intrínseco histórico, mas numa visão da sua essência, assim como estão somente diante dos olhos de Deus e como devem ser comunicados à igreja. Apesar disso, João está ciente, a cada instante, de que essas duas grandezas sem dúvida alguma se concretizam e efetivam no âmbito da história terrena. Consequentemente, ele está vendo algo no céu – outro dado não consta no texto – porém entende que se refere à terra e à história, descrevendo a visão dentro dessa compreensão. Portanto, ele entende que o que viu tem caráter de sinal.
O grande sinal dentro do céu consiste de uma mulher. Na Antiguidade era costume geral retratar cidades como elegantes personagens femininos. Muitas vezes elas ostentavam a coroa murada, que fazia lembrar a muralha da cidade e na qual cada gema representava uma torre de defesa. Também essa mulher trazia uma coroa com doze pedras que brilhavam como estrelas. Desta maneira era possível dirigir-se de forma pessoal a uma cidade ou a um reino, como se fosse uma mulher abatida, uma mãe, uma filha ou virgem, ou também como a uma prostituta. A figura da “mãe” era aplicada em relação aos diversos moradores da terra ou também diante das cidades filiais, às quais tinha “dado à luz”. O uso terminológico é bem conhecido dos leitores da Bíblia. Em Lc 19.44 Jesus interpela Jerusalém como “tu e teus filhos”. A prostituta Babilônia é, p. ex., a mãe de muitas outras prostitutas (Ap 17.5).
Essa mulher é a mãe do Messias (v. 5) e de outra grande descendência (v. 17), a saber, os que crêem em Cristo. Por causa desse último aspecto de forma alguma trata-se de Maria, como ensinava a exegese católica, que nesse texto venerava Maria como rainha do céu, promovendo sua ilustração em inúmeros quadros. Será que devemos pensar na igreja do nt? “A mulher é a igreja. Ela deveria dar Cristo ao mundo através de seu testemunho.”530 Contudo, conforme Ap 11.3, o tempo do testemunho começa somente com os “mil duzentos e sessenta dias”, uma época que segundo Ap 12.6 principia somente depois do nascimento e exaltação do Messias. Por causa da vinculação dos “mil duzentos e sessenta dias” ao período da exaltação do Cristo até sua volta em glória também se descarta a interpretação de que a mulher seria um povo judaico convertido no final desse período.531
Resta unicamente uma explicação: a mulher nos v. 1,2 é a Jerusalém que espera pelo Messias, no sentido do povo de Deus do at.532 Com freqüência lemos a respeito de suas “dores de parto” (Is 26.17,18; 66.7,8; Jr 4.31; Mq 4.9,10; 5.3; etc.). O judaísmo falava das “dores de parto do Messias”. Simultaneamente transcorre uma linha de sentido profundo até Eva em Gn 3.15. Os conceitos combinados “mulher – serpente – inimizade de morte – semente” tanto lá como aqui não podem passar despercebidos. Afinal, aqui está sendo dado à luz “aquele” (em Gn 3.15 aparece o singular!) que esmaga a cabeça da serpente, ou seja, que vence a Satanás. Como esse Messias é nascido de Israel, Eva e Israel convergem nessa ilustração.533 Israel é, portanto, a mãe do Messias, e, conseqüentemente, também a mãe de todos os fiéis (de acordo com o v. 17).
Essa mulher é ornada através de seu marido (Iahweh; cf. Is 61.10; Ap 19.7; 21.2). João a vê em esplendor divino, rodeada de tudo o que o céu tem a oferecer de luz. De modo semelhante é vista a amada em Ct 6.10: vestida do sol, o símbolo cósmico da glória luminosa de Deus. A característica solar também faz parte do aspecto de Cristo (Ap 1.16; também Ap 10.1). Em decorrência, a mulher está rodeada do brilho da majestade de Deus e de Cristo. E a lua debaixo dos pés. Ao contrário do sol, os antigos relacionavam esse satélite terrestre mais intensamente com a terra, em vista de sua proximidade maior do planeta, de suas forças telúricas que movem a natureza e de suas influências vigorosas sobre nossa vida orgânica. Talvez nessa vida a glória da criatura se contraponha à glória dos céus. Também a glória da criatura é devida a essa mãe do Messias. Sobre sua cabeça ela traz uma coroa de doze estrelas. Acaso ela devia apontar para os doze patriarcas de Israel, em consonância com Gn 37.9? Nesse caso se somaria à majestade dos céus e da terra também a da história da salvação.534




528 O termo grego semeía (sinal) é da mesma família que semaíno, cf. o comentário a Ap 1.1. Todo o livro do Ap, portanto, é um livro de sinais, ainda que o substantivo seja usado apenas em Ap 12.1,3; 15.1. Também no evangelho de João “sinal” é uma palavra preferencial, contudo na acepção de “milagre”. Nesse sentido também retorna em Ap 13.13,14; 16.14; 19.20.
529 A tradução “no céu” [fixado ao céu] parece ser comandada pelo desejo de encontrar correlações para uma mitologia dos astros. O texto não induz à idéia de que tudo se desenrola no firmamento dos astros. Por que se deve traduzir aqui en tõ ouranõ de modo diferente que em Ap 4.2 e, depois, repetidas vezes? A luta com Miguel realizou-se dentro do céu (Ap 12.7), o dragão perdeu seu lugar dentro do céu (Ap 12.8), a saber, “perante Deus” (Ap 12.10), assim como João também ouviu uma voz dentro do céu (Ap 12.10) e predomina a alegria dentro do céu (Ap 12.12).
530 Assim entendem Jörg Zink, e, de forma análoga, Lilje, Zahn, Lohmeyer.
531 Schuhmacher, Tausendjähriges Reich, pág. 175-176, expõe: A mulher seria “indubitavelmente o Israel escatológico” (referindo-se à na fase final do fim dos tempos), pois os símbolos de Ap 12.1 estariam apontando para a família de Jacó; na Escritura “mulher” seria “consistentemente uma metáfora para Israel”; a incumbência de pastorear as nações com cajado de ferro (Ap 12.5) seria a tarefa de Israel no reino dos mil anos; e o “deserto” (v. 6) apontaria para o Oriente Médio.
at Antigo Testamento
532 Também em Ap 11.1,2 João referiu-se respeitosamente ao papel de Israel na história da salvação. Cf. a posição de Paulo quanto ao papel dos israelitas: “deles descende o Cristo, segundo a carne” (Rm 9.5).
533 Ao que parece, essa combinação de idéias não era desconhecida, porque no livro de Enoque o Messias é chamado de “Filho da descendência da mãe dos viventes”. Igualmente está comprovado, em relação a ele, o uso de “Filho de Mulher” (segundo Bill i, pág. 957).
534 Por princípio não é conveniente destacar formulações isoladas de uma descrição assim, interpretá-las à parte e depois recompô-la artificialmente. A exegese precisa preservar a imagem unitária, assim como João a viu e testemunhou, a cada momento.
Comentário de Romanos 5:3-5





Comentário de Romanos 5:3-5
Apesar da frase: “O justo viverá”, vale também a verdade: “Muitas são as aflições do justo”5 (Sl 34.19). E não somente isto, mas também nos gloriamos nas próprias tribulações. O justo sempre será como um estilhaço na carne para um mundo de injustiças (Rm 1.18). É inconcebível que ele permaneça livre de contrariedades, ameaças e medo. “Filho, se te dedicares a servir ao Senhor, prepara-te para a prova” (Eclesiástico 2.1 [bj]). Pressão de todos os lados tenta esmagar novamente sua fé. As “tribulações” devem ser entendidas aqui como uma síntese. Elas vêm de fora como de dentro, física, espiritual e intelectualmente, do exterior como do interior da igrejad. Tanto mais admirável é que essa plêiade de males não apenas é incapaz de obscurecer o gloriar-se e a esperança daquele que crê, mas que até pode intensificá-los. Pois não se gloria, apesar de sofrer, mas precisamente porque sofre: sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perseverança, experiência; e a experiência, esperança. Conjugadas com a fé (v. 1,2), as tribulações produzem uma corrente de reações positivas. Assim como é possível usar uma escada rolante descendente para subir por ela correndo, assim é possível superar em direção oposta aquilo que deprime (Rm 8.28). Subitamente descobrimos o sofrimento para Cristo como sendo um sofrimento com Cristo, como um presente da mais íntima comunhão com elee e como marca registrada da autenticidade de nosso seguimento. Isto transmite uma firmeza antes desconhecida. Provações superadas, porém, resultam em experiência, a qual por sua vez ativa a esperança pela glória de Deusf. Apoiando-se em palavras de salmos como Sl 22.5; 25.3,20, o texto continua: Ora, a esperança não confunde. O versículo seguinte, porém, mostra que Paulo não trabalha nem um pouco com lemas de persistência obstinada.
De onde esses atribulados retiram sempre de novo seu vigor? Porque o amor de Deus é derramado em nosso coração. Se por um lado precisam conviver, como todos os demais, com perguntas não respondidas, por outro lado persistem no gloriar-se, pois encontram-se simultaneamente sob a impressão elementar de serem amados por Deus. Apesar de compreender sempre, eles sabem o que os espera junto de Deusg. Uma “iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Cristo” (2Co 4.6) apoderou-se de seu coração antes obscurecido (Rm 1.21): pelo Espírito Santo. Esse Espírito é o que preenche o próprio Deus e que também o anima em relação a nós. Quando ele nos foi outorgado, Deus partilha conosco sua posse mais íntima, seu amor. Esse amor, ademais, foi derramado, ou seja, foi dado ilimitadamente6. Aos que o invocam, Deus não estende apenas o dedo mindinho, mas a mão toda. Ele não os aceita para um “cursinho informativo”, porém para uma aliança perpétua (2Co 1.22).




5 Uma instrução detalhada sobre os sofrimentos do cristão é dada em Rm 8.18-39.
bj Bíblia de Jerusalém, 1987.
d Rm 8.35-39; 1Co 4.9-13; 2Co 4.8-10
e Mt 5.11,12; At 5.41; Fp 1.29; 3.10; 1Pe 4.13
f Rm 8.18; 2Co 12.9,10; Jo 16.2-4; Tg 1.2–4.12; 5.11
g 1Co 1.9; 15.42-44; 15.57,58; Fp 1.6; 1Ts 1.10
6 Derramar não é gotejar. Consta já em Jl 2.28, cf. At 2.33, o termo “derramar sobre”, significando a concessão de plenitude irrestrita e não parcimoniosa. Depois também retorna com muita clareza em Tt 3.6: “em rica medida”.
Comentário de Romanos 5:1-2




Observação preliminar
Comentário de Romanos 5:1-2
O tom da controvérsia dá lugar ao estilo do nós, ou seja, a constatações comunitárias. Fala a comunidade dos que crêem. Ela está proferindo sua confissão básica, que fornecerá matéria-prima para os próximos quatro capítulos. Essa confissão não gira mais em torno do ponto da reversão libertadora, mas desdobra essa salvação para dentro da vida, e isso de forma tríplice: do estado da graça já alcançado, passando pelas aflições atuais, até chegar à esperada perfeição. A ênfase vai se transferindo visivelmente para a redenção no juízo final, pois: Tudo está bem quando acaba bem! De fato, tudo está centralizado na pergunta: Nossa vida como um todo será bem-sucedida? Somente a resposta a essa pergunta torna nossa vida plena de sentido, ou, inversamente, sem sentido. É o futuro que qualifica nosso presente. Portanto: podemos ter um fundamento para a esperança? Dito em termos bíblicos: podemos “gloriar-nos”? Esse conceito emoldura todo o trecho (v. 2,3,11). Antes abordou-se o gloriar-se falso (Rm 2.23; 3.23,27; 4.2). Agora cabe anunciar confiança verdadeira na vida.
A salvação desdobra-se para aquele que com fé firmou os passos no fundamento legal da morte de Cristo. Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus. A “paz”, na acepção bíblica, sempre tem a ver com a totalidade abrangente. O Deus que nos absolve como justos não faz nada pela metade. Tudo é colocado em ordem3. Nós o experimentamos não apenas através daquilo que nós somos e temos, mas por meio4 de nosso Senhor Jesus Cristo, enquanto espaço de graça na qual estamos firmes. Não se pode adentrar esse espaço facilmente de todos os lados, porém ele possui um acesso determinado, à semelhança, p. ex., do recinto do templo em Jerusalém. Seus portões tinham o nome de “portas da justiça” (Sl 118.19,20; Is 26.2). Somente pessoas justas podiam aproximar-se. Assim, a procissão festiva de peregrinos parava diante do portão e era submetida ao exame dos sacerdotes (Sl 15; 24). Somente quem fosse reconhecido como justo obtinha acesso ao recinto da presença divina. O cristianismo primitivo também via a sua justificação por Cristo no contexto dessa idéia. É Cristo que conduz à presença de Deusa. Sim, ele em pessoa éb nosso acesso para estarmosc na graça. O fato de que Cristo está sendo designado como Senhor faz com que o olhar se volte singularmente ao Exaltado. Ele foi nossa paz não apenas na cruz, mas também se coloca atualmente e até no juízo final como nossa garantia perante Deus e preserva para nós a paz de Deus (Rm 4.25; 8.34). Isso tudo obviamente é valido pela fé, como Paulo insere mais uma vez como premissa impreterível nos v. 1,2.
Cada pessoa corre o risco de que sua vida seja um fracasso. Porém os que crêem são tomados de confiança: e gloriamo-nos na esperança da glória de Deus. Ao tratarmos de Rm 3.27, já expusemos que a Bíblia não descarta esse gloriar-se como sendo mera vanglória. Constitui uma marca necessária da existência humana. O alvo de Deus não é o ser humano sucumbido, mas radiante, que sabe vencer e um dia de fato estará coroado de vitórias (Rm 8.37). Como o ser humano se torna vencedor? Ele brilha quando Deus brilha. Um dia, quando “o reino e o poder e a glória” forem definitivamente de Deus, isso também significará a glorificação concomitante de todos os que estão em Cristo (Rm 8.17,30; Fp 3.21).




3 Paulo aproxima-se novamente das passagens centrais de Isaías: Is 45.7; 48.18,22; 52.7; 54.10; 57.18,19. Em termos lingüísticos, a palavra hebraica para “paz” (shalom) contém “unificar”, “completar”, “transformar numa totalidade intacta”, reunir o que cumpre manter junto. É nesse sentido que “paz” se tornou um termo condutor da primeira igreja, p. ex., em Rm 1.7; 8.6; 14.17,19; 15.13,33; 16.20.
4 Esse “por meio de Cristo” ocorre 34 vezes em Paulo, p. ex., no trecho sob análise, ainda nos v. 2,9,10,11.
a Ef 2.17-20; 3.11,12; Hb 2.10; 4.16; 9.8-12; 10.19-22
b Jo 14.6
c 1Co 10.12; Gl 5.4; 1Pe 5.12; 2Pe 3.17,18

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